Como citado no texto por Baudillard :
"Estamos num universo em que existe cada vez mais informação e cada vez menos sentido.”
Seguindo essa linha de raciocínio, podemos analisar mais a fundo o fato de que a informação, e seu excesso, pode ser considerada tanto positiva quanto negativa. O autor (Paulo Serra) explora essa relação do excesso da informação com o tema da memória. Ele apresenta os seguintes motivos por fazer essa relação:
Associamos a memória com a construção de sentido diretamente, quando os teorizadores enxergam a ‘memória’ das máquinas, da rede, como meta da perfeição e da realização do sonho moderno de registrar, conservar e transmitir todas as memórias, garantindo a abundância do sentido. Mas esse fato de construir a memória a partir de informações é falho, pois envolve contradições que apontam para a sua impossibilidade, que se deve a uma concepção errada do conhecimento, sujeito e da própria memória.
Assim como, no exemplo dado, o imperador Shih Huang Ti mandou queimar todos os livros que mencionassem imperadores que o haviam antecedido e tomou para si o nome de outro imperador a quem os chineses atribuíam a invenção da escrita e da bússola, a idéia de destruir uma memória antiga para construir uma memória nova em seu lugar foi retomada pelos Iluministas, no Ocidente.
Tais, responsáveis pela Encyclopédia (que significa,coincidentemente, educação completa) criaram esta com o intuito de destruir uma memória identificada com a autoridade, os preconceitos e as superstições, para dar lugar a uma memória constituída pelos conhecimentos essenciais das ciências, artes e dos ofícios, criados para determinar uma sociedade mais racional e humana (apoiada pela escrita e pela imprensa).
Dentro desse projeto da Encyclopedia, temos diversos aspectos fundamentais para a sua criação, tais como a influencia no futuro mediante a constituição de uma memória artificial - Reunindo (sistematizar), expondo (aos contemporâneos) e transmitindo os conhecimentos obtidos no âmbito das ciências, das artes e dos ofícios.
A Encyclopedia também conta com uma influência empirista, que diz questão a origem do conhecimento. Segundo D’Alembert (um dos criadores da Encyclopedia) o conhecimento pode ser dividido em duas instancias. Na primeira, são os conhecimentos diretos (ou sensações) que recebemos de forma passiva, e, na segunda são os conhecimentos reflexos, que resultam da unificação e combinação do espírito sobre os conhecimentos diretos.
Dentro desses conceitos de conhecimentos (diretos ou reflexos) temos também uma ordem na Encyclopedia para tais conhecimentos, que se identificam como Memória (coleção puramente passiva e maquinal desses mesmos conhecimentos), Razão (raciocina sobre os objetos das idéias diretas) que se relaciona com Filosofia, Imaginação (talento de criar imitando) que se relaciona com as Artes.
Estes se agrupam de tal forma :
Conhecimentos reflexivos - Razão – Filosofia, Imaginação – Artes
Que se fundam com
Conhecimentos Diretos – Memória – História
Levando tudo isso em consideração, é o próprio criador da Encyclopedia, D'Alembert, que melhor coloca em perspectiva os assuntos tratados:
“As idéias que se adquirem pela leitura e pela sociedade são o germe de quase todas as descobertas. É um ar que respiramos sem nele pensar, e ao qual devemos a vida."
Em relação ao papel da mídia, na Encyclopedia, ela é vista como um prolongamento (artificial) da memória. A mídia, nesse caso, é vista como a escrita e a imprensa, sendo que ela é colocada como parte da Lógica, que acaba por englobar a arte de pensar, reter e comunicar.
Obviamente, esse projeto de criação de uma memória artificial acaba por gerar problemas. Tais como a constante alteração (revolução) dos conhecimentos nas ciências e nas artes. A própria Encyclopedie demorou 22 anos para ser publicada inteiramente, espalhando os seus 17 volumes de texto e 11 de gravura por todos esses anos. Sendo assim, ela precisaria de constantes atualizações, contrariando o propósito inicial de sua criação, que era o de se ter um resumo geral e atual do conhecimento relevante das diversas áreas. A única maneira dela própria não cair em contradição seria se toda a criação e novos conhecimentos parassem de evoluir, mantendo a Encyclopedia a única a reter todo o tipo de informação já dada.
Outro problema apresentado é o filtro dado a tantas informações apresentadas. Como tais informações são escolhidas, e denominadas relevantes? O outro criador da Encyclopedie, Diderot, distingue sua própria criação e o jornal como meios especiais para se reter tanta informação. Para ele, o que distingue tais meios é o tempo, ou, a sua duração em termos de memória. Enquanto que o jornal possui um tempo constantemente renovável em suas informações, dando todos os dias novas notícias, a Enciclopédia é reconhecida por, justamente, o oposto. É reconhecida por sua durabilidade, pelo fato de conservar o memorável e que visa instruir permanentemente a espécie humana no geral.
E esses problemas apenas aumentaram com o passar do tempo, especialmente com relação ao mapeamento do trabalho produzido. Para o cidadão comum, é difícil separar informação que, hoje em dia, é dada com cada vez maior disponibilidade, mas com crescente dificuldade no campo da acessibilidade. Ou seja, a fragmentação de tanta informação em diferentes mídias acaba por tornar o conhecimento mais difundido, tornando, também a educação cada vez mais incompleta.
Existe também o problema da mass media, ou, os meios de comunicação em massa. Por um lado, essa divulgação em massa leva o consumidor a procurar informação rápida, direcionada ao entretenimento imediato e, conseqüentemente, acaba por se destinar a divertir e agradar, ao invés de instruir e comover. Mas também existem casos onde, por exemplo, existem livros que são considerados importantes, mas que não fazem diferença na vida de uma pessoa tanto quanto um filme ou uma música, que podem ser considerados informações descartáveis. Existem situações assim, mas qualquer que seja o caso, existe a impossibilidade de uma memória e de um sentido por completo.
Considerando a Internet como uma evolução da enciclopédia ( sendo ela, uma enciclopédia virtual por si só), vemos que ela engloba perfeitamente a idéia de acumulação que a enciclopédia original tinha, mas sem ter que escolher quais informações serão publicadas. A internet reflete um arquivo geral, engloba todos os tempos, épocas, formas e gostos; ela é uma acumulação perpétua e indefinida do tempo num lugar que não se alteraria.
Ao se constituir como uma memória artificial basicamente infinita, a Internet resolve todos os problemas que se colocam ao projeto da enciclopédia original, ao se manter sempre atualizada, ao praticamente eliminar o tempo de publicação e consulta da informação e ao construir uma base para a coexistência de inúmeros princípios organizativos, devido a sua estrutura hipertextual e aos diversos instrumentos de pesquisa utilizados.
Entretanto, como toda moeda tem dois lados, a Internet apresenta aspectos negativos, sendo o principal citado no texto, o filtro de informações nos instrumentos de pesquisas. Por mais que ele consiga acompanhar o crescimento exponencial do número de informações liberadas todo dia, não é tão fácil selecionar e separar as informações relevantes do lixo que deve ser esquecido. Com a possibilidade dessa seleção, se pressupões que o cibernauta já tenha uma idéia prévia do que vai procurar, sabendo aonde ir para achar o que precisa, tendo uma noção do mapa do território virtual. Mas essa é uma minoria da Rede, a maioria dos internautas navega às cegas, contentando-se com a informação mais fácil, mais atrativa ou, por vezes, até a mais chocante. São para esses cibernautas que a Internet acaba por virar apenas um meio de diversão, distração e esquecimento, se aproximando cada vez mais da televisão.
E é assim que chegamos ao paradoxo apresentado por Platão, mas em relação à escrita: a informação que importa só tem utilidade para quem já está informado, quem não possui esse nível de informação prévia, de nada serve essa procura.
Outra afirmação de Baudillard citada no texto se encaixa com relação à discussão sobre a Internet:
“Hoje em dia, por toda a parte, são as memórias artificiais que apagam a memória dos homens, que apagam os homens da sua própria memória”.
A partir das tecnologias da informação, é possível construir uma memória artificial perfeita, que serve de suporte para as tarefas de reflexão, mas sem a imperfeição da memória humana, garantindo a abundancia do sentido. Mas a memória também é essencial na construção da subjetividade da identidade pessoal de cada indivíduo, sendo assim, não mais artificial, mas parte do ser humano, pois toda a parte de interpretação, de construção de um sentido, depende da memória, por maior ou menos grau que isso aconteça. Isso nos leva a outro paradoxo da condição humana, o de que a possibilidade do sentido acaba por residir na fragilidade e imperfeição da memória humana, e não na perfeição das tecnologias da informação.
Rafaella Castello
06004206
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