Há um fator decisivo num processo de comunicação que vai do ponto onde eu me comunico e o que meu locutor apreende da minha mensagem. O que passa e como passa por essa via que liga os dois pontos são os principais aspectos desse processo comunicativo.
Parece ser o grande desafio das novas formas de comunicação (o hipertexto, por exemplo) de resolver a questão da geração de sentido. Informar não necessariamente parece ter o significado de geração de um sentido ou conhecimento, assim como o conhecimento em excesso, se isolado, pode ele mesmo provocar um esvaziamento dos sentidos. Até que ponto os meios transmitem a informação de maneira aberta? Eles dão margem à interpretações ou trazem a informação já decodificada, onde não há o menor grau de criação, fazendo do meio um mero condutor de veículos? Essas características dizem mais a respeito aos meios ou a seus criadores / usuários?
Há aqui um jogo de interesses muito grande, “o que eu quero dizer” e “o que eu quero que você entenda”. Se pensarmos no nível social, vivemos no nosso dia-a-dia uma relação constante de dois elementos que se alternam: na relação com o outro e na busca (consciente ou não) do reconhecimento de nós mesmos, vivemos numa lógica de dominação ou escravidão. Ao identificar-me com o outro, ao torná-lo meu semelhante, acabo por anular sua essência, reafirmando-me dessa forma ou validando meus atos e ações. Ao esvaziar o outro, gero graus de controle sobre ele, que por sua vez tem para comigo uma relação de escravidão a partir dessa lógica. Algo semelhante acontece nos processos de comunicação. Ao aceitar todas as diferenças, ao fazer sua justaposição ou criando segmentos (e aqui há uma estratégia clara utilizada pelo mercado), eu instituo essa “homogeneização das diferenças” como modelo e as padronizo, esvaziando-as, gerando conteúdo específico para cada grupo e praticando assim uma lógica de dominação.
Sendo assim, a idéia de uma informação para todos, de uma aceitação total das diferenças ou do seu repúdio, nada mais é do que uma forma de separação das partes e identificação de suas diferentes funcionalidades e projeção de suas necessidades. Não deixa de ser interessante esse sistema que, de certa forma, consegue manter certa autonomia e capacidade de permanência. Se eu isolo determinado sistema de trocas com o exterior, posso alimentá-lo ou sugá-lo até o momento em que o sistema já não consiga manter seu controle e entre em colapso, partindo para uma mudança radical ou para sua morte. No caso do dominador, é possível partir para outro segmento, investindo novamente em suas características específicas. Esse parasitismo não deixa de criar, no processo, mecanismos de manutenção desse controle – no caso da linguagem, podemos pensar num investimento exagerado nos elementos código e sintático, em detrimento à semântica.
Mas como resgatar o sentido dentro de uma lógica tão rígida de controle?
A começar, identificar o outro não significa unicamente sua aceitação. Identificar o outro como diferente é tomar uma posição e perceber que o mesmo se dará do outro lado. É possível que do diálogo entre as partes surja determinado conflito e, para a construção do sentido, talvez seja esse o elemento principal. Se tomarmos novamente o exemplo de determinado sistema, se permite sua troca com o exterior, desde que ele mantenha certo equilíbrio, novas subsistemas surgirão, com propriedades específicas, mas dentro de sistemas maiores. A própria evolução humana parte de princípios semelhantes. Os constantes diálogos entre partes diferentes, gerando ou não processos conflituosos (ao invés de simplesmente justapor essas partes e alimentá-las cada qual com sua comida específica), cria possibilidades do surgimento de novos elementos, com novas combinações.
No caso da comunicação, é a partir do posicionamento de um indivíduo e de outro, da comunicação estabelecida entre os dois, num processo de “agenciamento”, de conexões e trocas de diferentes experiências, que é possível construir algum sentido.
É dessa possibilidade de conflito, de risco, de dúvidas e incertezas, além da escolha (e exclusão) que, eventualmente, nos levam à um posicionamento em relação ao mundo. É desse posicionamento, da comunicação entre dois indivíduos com essa postura, que se torna possível dar sentido a uma informação.
sábado, 27 de junho de 2009
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