Como já diz o ditado “Nada mais se inventa tudo de copia”.
Isso pode não ser inteiramente verdade para tudo, mas temos de admitir de que todos os nossos gestos e realizações estão fadados a serem comparados com outros do passado, fazendo emergir o novo no velho.
E é com a noção de que o presente se alimenta do passado, pois é sua fonte de matéria prima, que podemos começar a analisar o hipertexto, que teve suas teorias constituídas nas últimas décadas estruturadas sobre noções de texto que vinham se acumulando no final do século.
O hipertexto se assemelha mais a uma forma de escrita do que um conceito fechado, pois ainda está em processo de crescimento e sedimentação. Ele acaba por representar uma convergência entre teorias e experiências tecnológicas, sendo constantemente relacionado ao computador.
Mas existe a constante duvida sobre o hipertexto, se existe algum objeto específico a que chamamos de hipertexto, ou alguma forma hipertextual de leitura; chegamos a um ponto onde não sabemos mais se o hipertexto incorporou características de recentes teorias literárias, ou se ele apenas nos apresentou uma nova forma de leitura de textos antigos e revisão das antigas teorias.
O procedimento hipertextual em si não surgiu do computador, embora apresente características como a escrita em teia, a conexão, a quebra de linearidade e a variedade de recursos gráficos. Na realidade, temos provas de hipertextualidade no texto de Cervantes, Dom Quixote, como a divisão em capítulos, marcados por subtítulos, prólogos, linhas de apoio, sumários e dedicatórias. Tudo isso ajuda a mapear a leitura de forma topológica, levando ao deslocamento do centro para as margens do texto, marcando outra característica do hipertexto, o descentramento.
Podemos achar características típicas do hipertexto ao longo da tradição literária, de forma não circunscrita, como nas publicações jornalísticas e periódicas, com seus índices, gráficos, linhas de apoio e etc, que permitem a navegação pelo texto impresso, e serviram de modelo para as páginas de entrada da Internet. Também, escritores como James Joyce, em Ulisses, se utilizaram de quebra de linearidade e de interconectividade, também características do hipertexto. Celebramos o hipertexto como novidade no mundo da escrita, mas deixamos de pesquisar a história por trás dele, as fontes das quais ele bebeu. O hipertexto é um objeto cultura, perfeitamente inserido em um conjunto de práticas artísticas e intelectuais, que está ligado à forma de se narrar, interpretar e pensar do mundo.
Uma de suas características marcantes é o fato de que ele rompe com a ilusão das origens e com os limites impostos pelo início e fim de algo. No texto, é citado como Genette interpretou o conceito de hipertexto ( de forma não associada ao meio eletrônico) como se ele fosse uma obra que nascia da relação desta com outra por transformação, imitação, paródia ou pastiche. Seguindo essa noção dada por Genette, Ulysses, de James Joyce, poderia ser considerado o hipertexto da Odisséia, de Homero.
É seguindo esse contexto que vemos a teoria do hipertexto como algo que surgiu devido à emergência do novo no antigo, algo que não apaga as teorias anteriores, mas sim, as utiliza na transformação e assimilação de algo novo. Pierre Levy fala :
“Que isto fique claro : a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por complexificação e deslocamento de centros de gravidade.”
Na realidade, o conceito de hipertexto foi lançado pelo cientista da computação Vannevar Bush, em seu artigo intitulado “As We May Think”, publicado em julho de 1945.
Nele, Bush concebeu um invento futuro e imaginário, chamado de Memex, no qual ele poderia construir uma trilha de seu interesse em meio ao labirinto de informações disponíveis, consultando apenas seus livros, discos e palestras. Para Bush, as técnicas de armazenamento de conhecimento, como as bibliotecas, enciclopédias, arquivos e microfilmes entravam em conflito com as ferramentas criadas para acessar tais informações.
Para Theodor Nelson, o inventor do termo hipertexto, este era uma forma de escrita associativa e não seqüencial. Para ele, o termo ‘hipertexto’ tentava expressar sua idéia de texto expansível. Seguindo essa visão, o hipertexto pode ser um texto que vai além do texto em si, mais do que uma palavra atrás da outra sem variação permitida. ele acaba por impor uma hierarquia ao pensamento, e redefini o livro de modo a incorporar tanto a forma linear quanto a não linear, pois todo texto, por mais fragmentado que ele seja, acaba por reter algum tipo de seqüencialidade, e o hipertexto oferece essa multilinearidade e a interconectividade.
Dentro do universo do hipertexto, onde existe uma cadeia aberta de links que se associam de maneira indeterminada e imprevisível, o autor não é mais considerado um indivíduo, mas sim, uma instância coletiva. O leitor não é apenas mais apenas um consumidor, mas sim, um produtor de significações, ele próprio acaba por se tornar um autor, seja lá de qual jeito ele escolha fazer isso.
Ao depender do leitor, como autor, o todo não é dado no hipertexto, e cada leitura é sempre uma variante do corpo original da obra, e, nesse corpo, existe uma possibilidade ilimitada de configurações, e a narrativa vira uma teia, um emaranhado de informações em constante mudança e movimento.
Novamente, uma citação de Pierre Levy, do texto, relacionada ao hipertexto, embora que se refira ao texto eletrônico, a própria autora dia que pode ser entendida a textos veiculados em meios tradicionais:
“Hipertexto é um conjunto de nós ligados por conexões. Os nós podem ser palavras, imagens, gráficos ou partes de gráficos, seqüências sonoras, documentos complexos que podem eles mesmos ser hipertextos. Os itens de informação não são ligados linearmente, como em uma corda com nós, mas cada um deles, ou a maioria, estende suas conexões em estrela, de modo reticular. Navegar em um hipertexto significa, portanto, desenhar um percurso em uma rede que pode ser tão complicada quanto possível. Porque cada nó pode, por sua vez, conter uma rede inteira.”
Rafaella Castello
06004206
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